terça-feira, 22 de abril de 2014

A VIDA DE WILLIAM SHAKESPEARE - PEÇAS, LINGUAGEM E PERSONAGENS

A VIDA DE WILLIAM SHAKESPEARE

PEÇAS, LINGUAGEM E PERSONAGENS

Em 1623, John Heminges e Henry Condell (atores), dois amigos de Shakespeare no King's Men, publicaram uma compilação póstuma das obras teatrais de Shakespeare, conhecida como First Folio. De suas obras restaram, até os dias de hoje, 38 peças,154 sonetos, dois longos poemas narrativos, e diversos outros poemas. Shakespeare produziu a maior parte de sua obra entre 1590 e 1613.

É impossível estabelecer as datas exatas das obras de Shakespeare, mas pode-se classificá-las em quatro grupos, que representam os períodos de sua vida, da juventude à velhice: as obras do primeiro período são marcadas por sonhos juvenis e pelo espírito exuberante; o segundo período foi o das grandes crônicas e comédias românticas; o terceiro período foi a depressão e a tristeza que as marcaram (motivo da desilusão que levou o dramaturgo a sentir-se deprimido durante essa fase da vida, não se sabe ao certo); o quarto período, a tempestade abrigada no espírito de Shakespeare parece ter desvanecido. Três categorias: tragédia, história e comédia pertencem a sua produção literária.

Outro ponto importante é observar a composição das personagens shakespearianos. A maioria delas está inserida em situações comuns aos ingleses. Além disso, as personalidades chamavam a atenção, pois iam desde reis enlouquecidos pelo poder, até a história de amores proibidos. Outros ainda habitavam mundos fantásticos e traziam à tona grandes nomes da história antiga. As peças shakespearianas, de modo geral, retrataram uma variedade gigantesca de emoções. Acredita-se que Shakespeare utilizou recursos antigos, como o folclore, a mitologia e certas lendas para compor suas peças. Sua proximidade com a natureza humana fez-lhe maior do que qualquer um de seus contemporâneos. Humanismo e contato com o pensamento popular deu vitalidade ao seu idioma.

Shakespeare usou como ninguém a linguagem para explorar personalidades complexas, criar climas variados e controlar enredos estonteantes, recheados de identidades marcantes e misteriosas. 





A VIDA DE WILLIAM SHAKESPEARE - SEXUALIDADE DE SHAKESPEARE

A VIDA DE WILLIAM SHAKESPEARE



SEXUALIDADE DE SHAKESPEARE

A sexualidade de William Shakespeare foi questionada várias vezes ao longo das décadas e ainda causa polêmica. Provas circunstanciais (presentes em suas peças e, especialmente, em sonetos shakespearianos) sugerem que ele mantinha relações com outras mulheres e que até pode ter se envolvido num interesse erótico por homens. 

Essa hipótese foi assegurada por John Mannigham, estudante de advocacia, o qual escreveu em seu diário que Shakespeare havia tido uma breve relação com uma mulher, durante os anos da performance de Richard III.

Possíveis elementos de um dos vinte e seis Sonetos de Shakespeare são dirigidos a uma mulher casada, figurada como Dark Lady.

O Soneto 151 é o 151 de 154 poemas em forma de soneto que foi publicado em uma coleção de 1609, intitulado SHAKE-Speares SONETOS. O soneto pertence ao Dark Lady sequência (sonetos 127-152), que se distingue do A Feira da Juventude sequência, por ser mais abertamente sexual em sua paixão. O Soneto 151 é caracterizado como "obsceno" e é usado para ilustrar a diferença entre o amor espiritual para a Feira da Juventude e o amor sexual para a Dark Lady . 

O Fair Youth é o jovem sem nome a quem os sonetos de 1 a 126 são abordados. Alguns comentaristas, observando a linguagem romântica e amorosa usada nessa sequência de sonetos, têm sugerido uma relação sexual entre o autor e o jovem, outros leram como relação de amor platônico.

John Manningham (1622) foi um advogado inglês e diarista, contemporâneo da época elisabetana e jacobina e uma fonte importante sobre a vida e o mundo dramático de Londres. Para os elisabetanos daquele período, o que hoje é denominado homossexualidade ou bissexualidade era conhecido apenas como um ato sexual simples e, no que se refere à sexualidade de Shakespeare, não existe sequer uma prova que o considere bissexual ou homossexual; porém, todas as teorias sobre esse assunto oriundam de uma análise embasada em suas peças e, em particular, de determinados sonetos seus.

As aventuras londrinas de Shakespeare em Nada Como o Sol de Anthony Burgess (1917-1993, escritor, compositor e crítico britânico) incluem uma relação homossexual com o Duque de Southampton – a quem o poeta dedicou, de fato, poemas como “Vênus e Adônis”; e teria havido a paixão por uma exótica mulher oriental de pele escura (ela seria a dama negra, misteriosamente aludida em alguns sonetos). (BURGESS, 2003, p. 54)

















A VIDA DE WILLIAM SHAKESPEARE - MORTE

A VIDA DE WILLIAM SHAKESPEARE

MORTE

O fato é que William Shakespeare morreu aos 52 anos, no dia 23 de abril de 1616, e foi enterrado dois dias depois, na Igreja de Holy Trinity, em sua cidade natal. Anne Shakespeare, sua viúva, viria a morrer sete anos mais tarde, em 1623, o ano da publicação do Primeiro fólio, sendo enterrada ao lado do marido. Não se sabe como Shakespeare morreu, apesar de haver muita especulação em torno de sua morte. Alguns biógrafos, como Park Honan em Shakespeare: uma vida (1998), acreditam que Shakespeare se encontrava doente havia já algum tempo e morreu em decorrência de uma febre. Outros, mais afeitos a sensacionalismos, preferem a versão de que a febre foi devida a uma noitada de bebedeiras com Ben Jonson e Michael Drayton, por ocasião da visita dos dois ao poeta em Stratford. 

Michel Dryton (1563 - 1631) era um inglês, poeta que ganhou destaque na era elisabetana. Era ativo em escrever para o teatro, mas ao contrário de Shakespeare e Ben Jonson, ele investiu pouco sua arte no gênero. Por um período de apenas 5 anos, 1597-1602.

Benjamin Jonson (1572 - 1637) foi um dramaturgo, poeta e ator inglês da Renascença, contemporâneo de Shakespeare. Entre suas peças mais conhecidas estão Volpone, The Alchemist (O Alquimista) e Bartholomew Fair: A Comedy (A Feira de São Bartolomeu: uma Comédia). Ben Jonson foi mestre na produção de mascaradas, entretenimentos festivos que utilizavam a música, a dança e o canto em cuidadosa coreografia. Dotado de uma genialidade multiforme, sua obra conta não apenas com peças teatrais, mas com a poesia lírica, o epigrama, a crônica, o gênero epistolar, as traduções e até a gramática.

O túmulo de Shakespeare mostra uma estátua vibrante, em pose de literário, mais vivo do que nunca. A cada ano, na comemoração de seu nascimento, é colocada uma nova pena de ave na mão direita de sua estátua. Como de costume de sua época, em que provavelmente havia a necessidade de esvaziar as mais antigas sepulturas para abrir espaços a novas, o escritor tendo esse receio, “exigiu” que fosse escrito em sua lápide um epitáfio, que anunciava a maldição de quem movesse seus ossos. Esse fator gera polêmica em muitos estudiosos sobre essa atitude: teria o autor realmente medo de que revirassem seus ossos? Teria algo escondido em seu túmulo? Poderia haver escritos (obras) que ele jamais gostaria que fossem encontradas?

Após a morte de Elizabeth I e Shakespeare, os demais dramaturgos da época não foram prejudicados. Jaime I, o sucessor da rainha, contribuiu para o florescimento artístico e cultural inglês; era um apaixonado por teatro.

terça-feira, 15 de abril de 2014

PAPO DE COXIA - REALISMO

REALISMO

Foi um movimento artístico e literário surgido nas últimas décadas do século XIX na Europa, mais especificamente na França, em reação ao Romantismo.Entre 1850 e 1880 o movimento cultural, chamado Realismo, predominou na França e se estendeu pela Europa e outros continentes. Os integrantes desse movimento repudiaram a artificialidade do Neoclassicismo e do Romantismo, pois sentiam a necessidade de retratar a vida, os problemas e costumes das classes média e baixa não inspirada em modelos do passado. 

Entende-se por "Realismo Literário" um estilo de escrita que toma a realidade como princípio orientador de criação artística por meio da palavra. Neste sentido, o Realismo pode ser percebido em texto de qualquer época, desde as primeiras manifestações da humanidade até hoje, mas como movimento relativamente organizado, começou na segunda metade do século XIX, na França, difundindo-se por todos os países da Europa, com oposição declarada, ou não, ao sentimento romântico. O movimento realista correspondeu à ascensão da pequena burguesia. O pensamento filosófico que exerceu mais influência no surgimento do Realismo foi o Positivismo. Ao contrário do gosto da alta burguesia, interessada no jogo vazio das formas artísticas (a "arte pela arte"), motivou-a uma arte voltada a solução dos problemas sociais, isto é, uma arte "engajada" de "compromissos", que se colocava também contra o tradicionalismo romântico e procurava incorporar os descobrimentos científicos de seu tempo. O Naturalismo é uma espécie de prolongamento do Realismo. Não chegaram a ser movimentos literários distintos, tanto é que muitos autores são simultaneamente realistas e naturalistas, sendo o Naturalismo cronologicamente posterior ao Realismo. Para muitos, o Realismo representava uma alternativa do que era visto como um isolamento ou mesmo um elitismo da vanguarda — ponto de vista que ganhou apoio a partir da adoção do Realismo Socialista como a forma oficial de arte da União Soviética. Contudo, outras vozes insistiam em que a vanguarda possuía um papel a exercer no desenvolvimento de um realismo moderno adequado às condições do século XX. 

Em geral, os realistas retratavam temas e situações em contextos contemporâneos do cotidiano, e tentaram descrever indivíduos de todas as classes sociais de uma maneira similar. O idealismo clássico, o emocionalismo romântico e drama foram evitados de forma igual, e muitas vezes os sórdidos ou não cuidados elementos de temas não foram suavizados ou omitidos. O realismo social enfatiza a representação da classe trabalhadora, e os tratam com a mesma seriedade que as outras classes de arte, mas o realismo, como prevenção a artificialidade, no tratamento das relações humanas e as emoções também eram um objetivo do Realismo. Tratamentos de assuntos de uma maneira heroica ou sentimental foram igualmente rejeitados

Embora alguns manuais de literatura estabeleçam uma grande ruptura entre as propostas estéticas do Romantismo e do Realismo, acreditasse que é possível considerar que há um momento de continuidade entre esses dois importantes momentos na história da literatura. O Romantismo conquistou o direito de registrar e debater os grandes momentos da história nacional dos países que floresceu; o Realismo, a seu modo, amplificou esse interesse e trouxe a reflexão sobre a realidade social e política para o centro das narrativas realistas.

Com o realismo, problemas do cotidiano das camadas sociais mais baixas ocupam os palcos. O teatro, inclusive o realista e o naturalista, era definido pelo fato de que não só ilustrava o que se desviava da melhor sociedade, mas também suplantava a vida real pela forma do drama. O herói romântico é substituído por personagens do dia a dia e a linguagem torna-se coloquial. A primeira grande obra dramática realista é A Dama das Camélias, de fevereiro de 1852, do francês Alexandre Dumas, filho (1824-1895). Essa peça conta a história de uma cortesã que é regenerada pelo amor, dando ao público a constatação de um mundo real, observado, sem fantasiosas e lúdicas vivências, e sim, do dia a dia que explica o comportamento dos personagens apresentados. Fora da França, um dos expoentes é o norueguês Henrik Ibsen (1828-1906), citado como o primeiro grande nome a despontar no Realismo. Em Casa de Bonecas, por exemplo, trata da situação social da mulher. Em obra Espectros, Ibsen desenvolve um comentário cáustico sobre a moralidade da sociedade norueguesa da época. O drama foi tratado duramente pelos críticos por abrir completamente a moral da sociedade ao falar de promiscuidade e doenças venéreas.

São importantes também o dramaturgo e escritor russo Máximo Gorki (1868-1936), autor de Ralé e Os Pequenos Burgueses, e o alemão Gerhart Hauptmann (1862-1946), autor de Os Tecelões.

O Realismo pode ser visto até hoje em dia, em peças teatrais como o Homem da Faixa Preta e outras.


O Realismo na literatura 


Motivados pelas teorias científicas e filosóficas da época, os escritores realistas desejavam retratar o homem e a sociedade em sua totalidade. Não bastava mostrar a face sonhadora ou idealizada da vida, como fizeram os românticos; desejaram mostrar a face nunca antes revelada: a do cotidiano massacrante, do amor adúltero, da falsidade e do egoísmo humano, da impotência do homem comum diante dos poderosos.

Uma característica do romance realista é o seu poder de crítica, adotando uma objetividade que faltou ao romantismo. Grandes escritores realistas descrevem o que está errado de forma natural, ou por meio de histórias como Machado de Assis. Se um autor desejasse criticar a postura de alguma entidade, não escreveria um soneto para tanto, porém escreveria histórias que a envolvessem de forma a inserir nessas histórias o que eles julgam ser a entidade e como as pessoas reagem a ela.

Em lugar do egocentrismo romântico, verifica-se um enorme interesse de descrever, analisar e até em criticar a realidade. A visão subjetiva e parcial da realidade é substituída pela visão objetiva, sem distorções. Dessa forma os realistas procuram apontar falhas talvez como modo de estimular a mudança das instituições e dos comportamentos humanos. Em lugar de heróis, surgem pessoas comuns, cheias de problemas e limitações. Na Europa, o realismo teve início com a publicação do romance realista Madame Bovary (1857) de Gustave Flaubert

Alguns expoentes do realismo europeu: Gustave Flaubert, Honoré de Balzac, Eça de Queirós, Charles Dickens.


Realismo no Brasil 


A partir da extinção do tráfico negreiro, em 1850, acelera-se a decadência da economia açucareira no Brasil e o país experimenta sua primeira crise depois da Independência. O contexto social que daí se origina aliado à leitura de grandes mestres realistas europeus como Stendhal, Balzac, Dickens e Victor Hugo, propiciaram o surgimento do Realismo no Brasil.

Assim, em 1881, houve um marco na literatura no Brasil, Aluísio Azevedo publica O Mulato (primeiro romance naturalista brasileiro) e Machado de Assis publica Memórias Póstumas de Brás Cubas (primeiro romance realista do Brasil). 

Machado de Assis foi um grande crítico e escritor do Realismo e também do Romantismo no Brasil, suas principais obras foram: Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba e Dom Casmurro. No artigo "Instinto de Nacionalidade" (1999), Machado critica o principal ponto de honra do Romantismo brasileiro: o tema nacionalista. Ele vai dizer, em poucas palavras, que para ser brasileiro não é necessário falar sempre de imagens nacionalistas ou de símbolos — como a natureza exuberante do Brasil, ou mesmo a figura do índio como marca nacional. Em relação ao Realismo, Machado sempre se manteve alheio aos preceitos explícitos da Escola. 

Desde o seu início, o realismo brasileiro foi sobre tudo urbano, muitas vezes retratando a vida na cidade do Rio de Janeiro, como já fazia em pleno romantismo, um precursor do realismo, Manuel Antônio de Almeida (1831-1861). A novela de Manuel Antônio de Almeida ocupa um lugar especial no cenário da ficção romântica brasileira, graças à sua originalidade, seu único romance, Memórias de um Sargento de Milícias, publicado em 1852-53 sob a forma de folhetins, difere em muitos aspectos dos romances comumentes publicados em folhetins do século XIX, o que explica sua franca popularidade na época, e sua maior aceitação na posteridade. Suas narrações ganharam um caráter cômico e, ao mesmo tempo, observador, que o aproxima muito do Realismo, mais com características arcais. Por essas razões Manuel Antônio de Almeida é considerado um escritor em transição do Romantismo para o Realismo. 


NATURALISMO

O teatro do naturalismo surge paralelamente ao movimento literário do naturalismo. Seu precursor foi o escritor e dramaturgo Émile Zola.

O naturalismo reivindicava a volta dos princípios realistas do "gênero sério" de Mercier, porém de modo mais radical. Os naturalistas afirmavam que a peça teatral deveria reproduzir miméticamente a realidade.

Porém, o teatro naturalista não prega apenas um espelhamento da realidade tal como muitos afirmam, essa vertente artística buscava o entendimento da essência humana e maior vivacidade cênica, a qual havia sido "congelada" pela tradição acadêmica.


Literatura 

Os romances naturalistas destacam-se pela abordagem extremamente aberta do sexo e pelo uso da linguagem falada. O resultado é um diálogo vivo e extraordinariamente verdadeiro, que na época foi considerado até chocante de tão inovador. Ao ler uma obra naturalista, tem-se a impressão de se estar a ler uma obra contemporânea, que acabou de ser escrita. Os naturalistas acreditavam que o indivíduo é um mero produto da hereditariedade e o seu comportamento é fruto do meio em que vive e sobre o qual age.

A perspectiva evolucionista de Charles Darwin inspirava os naturalistas, que acreditavam ser a Seleção Natural impulsionadora da transformação das espécies.

Assim, predomina nesse tipo de romance o instinto, o fisiológico e o natural, retratando a agressividade, a violência, o erotismo como elementos que compõem a personalidade humana.

Os autores naturalistas criavam narradores oniscientes e impassíveis para dar apoio à teoria na qual acreditavam. Exploravam temas como a homossexualidade, o incesto, o desequilíbrio que leva à loucura, criando personagens que eram dominados pelos seus instintos e desejos, pois viam no comportamento do ser humano traços da sua natureza animal.

No Brasil, a prosa naturalista foi influenciada por Aluísio Azevedo com a obra O mulato, publicado em 1881. Esta marcou o início do Naturalismo brasileiro e a obra O cortiço, também de sua autoria, marcou essa tendência.


Émile Zola 


O francês Émile Zola foi o idealizador do naturalismo e o escritor que mais se identificou com ele. O romance experimental (1880) é considerado o manifesto literário do movimento.

As leituras de Zola sobre a teoria evolucionista de Darwin (a Origem das espécies foi publicada em 1859), A filosofia da arte (1865), "um grande estudo fisiológico e psicológico". O que Claude Bernard tinha desvendado no corpo humano, Zola iria desvendar na sociedade. 

Em 1881 Zola lança sua obra-prima Germinal. Para escrevê-lo, o autor não se contentou com a pesquisa, foi direto à fonte. Passou dois meses trabalhando como mineiro na extração de carvão. Viveu com os mineiros, comeu e bebeu nas mesmas tavernas para se familiarizar com o meio. Sentiu na carne o trabalho sacrificado, a dificuldade em empurrar um vagonete cheio de carvão, o problema do calor e a umidade dentro da mina, o trabalho insano que era necessário para escavar o carvão, a promiscuidade das moradias, o baixo salário e a fome. Além do mais, acompanhou de perto a greve dos mineiros, por isso sua narração é tão impactante. A força de Germinal causou enorme repercussão, consagrando Émile Zola como um dos maiores escritores de todos os tempos.


Teatro 

No teatro, o naturalismo exerceu mudanças marcantes, com o surgimento do diretor, do cenógrafo e do figurinista. Até então, o próprio ator escolhia suas roupas, um único cenário era usado para diversas montagens, e não estava definida a posição do diretor como coordenador de todas as funções. A iluminação passou a ser mais estudada e adotou-se a sonoplastia. É um radicalismo do Realismo.


Naturalismo no Brasil 


No Brasil, as primeiras obras naturalistas são publicadas em 1880, sendo influenciadas pela leitura de Émile Zola.

Pela primeira vez, a literatura pôs em primeiro plano o pobre, o homossexual, os negros e os mulatos discriminados.




TEATRO REALISTA E NATURALISTA - SEMELHANÇAS E DIFERENÇAS


O Realismo e o Naturalismo apresentam semelhanças e diferenças entre si. O Realismo trata o homem interagindo com seu meio social, enquanto o Naturalismo mostra o homem como produto de forças “naturais”, desenvolve temas voltados para a análise do comportamento patológico do homem, de suas taras sexuais, de seu lado animalesco. 

Realismo - Movimento artístico da segunda metade do século XIX. Caracteriza-se pela intenção de uma abordagem objetiva da realidade e pelo interesse por temas sociais. O engajamento ideológico faz com que muitas vezes a forma e as situações descritas sejam exageradas para reforçar a denúncia social. O realismo foi uma reação ao subjetivismo do romantismo. Sua radicalização rumo à objetividade sem conteúdo ideológico leva ao naturalismo. Muitas vezes realismo e naturalismo se confundem.

Os naturalistas acreditavam que o indivíduo é mero produto da hereditariedade e seu comportamento é fruto do meio em que vive e sobre o qual age. A perspectiva evolucionista de Charles Darwin inspirava os naturalistas, esses acreditavam ser a seleção natural que impulsionava a transformação das espécies. Assim, predomina nesse tipo de romance o instinto, o fisiológico e o natural, retratando a agressividade, a violência, o erotismo como elementos que compõe a personalidade humana. 

O Naturalismo pode ser entendido como um prolongamento do Realismo. As duas estéticas são quase paralelas. O Naturalismo, na verdade, apresenta praticamente todos os princípios e características do Realismo, tais como o predomínio da objetividade, da observação e da verossimilhança. O seu dado particular é a visão cientificista da existência. Nesse sentido, o homem é o produto de seu meio, com o qual se confunde e do qual se mostra preso. 

Nos romances naturalistas, as fantasias e idealizações românticas cedem espaço à instintividade, às relações luxuriosas, às taras, à indignidade e aos crimes.

A VIDA DE WILLIAM SHAKESPEARE - CASAMENTO

A VIDA DE WILLIAM SHAKESPEARE

CASAMENTO


Em 1582, aos 18 anos de idade, casou-se com Anne Hathaway, que era provavelmente a filha mais velha de Richard Hathaway, de Shottery, um vilarejo próximo de Stratford. O pai de Anne era um importante agricultor de Warwickshire, tinha uma boa casa e muitas terras. Shakespeare tinha 18 anos, e Anne 26, e por isso o pai do rapaz teve que dar a permissão; e o casamento foi autorizado pelo bispo de Worcester. Estudos convergem sobre a pressa no casamento. Muitos apontam que Anne estava grávida, e outros, que a família e Shakespeare vislumbravam uma vida mais próspera devido aos bens da família da moça. Os dois foram morar na casa dos pais de William. Pouco tempo depois, em 1583, nasce Susanna, filha mais velha do casal. Posteriormente, em 1585, o casal teve os gêmeos Hamnet e Judith. Anne é uma das personagens mais misteriosas na vida de Shakespeare – os registros não esclarecem muito a respeito dela. Muitos biógrafos sugerem que o casal foi infeliz, mas nada foi comprovado. Anne aparece no testamento do escritor, no qual ele lhe deixou o seguinte trecho: “Deixo para minha esposa minha segunda melhor cama”, conforme consta do testamento de Shakespeare, 1616.

Isso gera uma série de especulações sobre o significado de tal herança. Especula-se que ele poderia estar se referindo à cama de hóspedes que, na época, era de costume oferecer aos convidados e era a melhor da casa; ou, alternativamente, ao leito conjugal que tinham compartilhado. Outra suposição é se ele teria sido deliberadamente maldoso com a esposa no testamento, ou estaria simplesmente partindo do pressuposto de que um terço de sua propriedade – a cota da viúva – seria automaticamente dela. O escritor inglês Anthony Burgess tem uma explicação ficcional sobre esse assunto. Em Nada como o Sol, um livro de sua autoria, ele cita Shakespeare espantado, em um quarto diante de seu irmão Richard e de sua esposa Anne: estavam nus e abraçados. (BURGESS, 2003, p. 35)

Até hoje não se tem fatos concretos do porquê de Shakespeare ter ido para Londres. Alguns dizem que foi para enriquecer e sustentar a família, e outros, pela infelicidade que vivia com a esposa. Há muitos relatos de que ele ia visitar a família muitas vezes por ano. 



segunda-feira, 14 de abril de 2014

PAPO DE COXIA - IBSEN

IBSEN


Henrik Johan Ibsen (18281906) foi um dramaturgo norueguês, considerado um dos criadores do teatro realista moderno. Foi o maior dramaturgo norueguês do Século XIX. Foi também poeta e diretor teatral, sendo considerado o “pai do drama em prosa” e um dos fundadores do modernismo no teatro

Muitas de suas peças foram consideradas escandalosas na época em que foram lançadas, mediante o fato de o teatro europeu estar sujeito ao modelo determinado pela vida familiar e pela propriedade. Os trabalhos de Ibsen analisavam a realidade contida por trás das convenções e costumes, o que trouxe muita inquietação para seus contemporâneos. Ele lançou um olhar crítico e a livre investigação sobre as condições de vida e as questões da moralidade da época. 

Ibsen é muitas vezes classificado como um dos verdadeiramente grandes dramaturgos da tradição europeia. Richard Hornby o descreve como "um profundo e poético dramaturgo — o melhor desde Shakespeare". Ele influenciou outros dramaturgos e romancistas, tais como George Bernard Shaw, Oscar Wilde, James Joyce e Eugene O'Neill. Muitos críticos o consideram o maior dramaturgo desde Shakespeare.

Ibsen viveu por 27 anos na Itália e Alemanha e raramente visitou a Noruega durante seus anos mais produtivos.

Ibsen nasceu na pequena cidade portuária de Skien, em Telemark, uma cidade que se ocupava do transporte de madeiras. 

Knud Ibsen veio de uma longa linhagem de marinheiros (capitães), mas decidiu se tornar um comerciante, alcançando sucesso inicial. Seu casamento com Maria Cornélia Altenburg foi "um arranjo familiar excelente. A mãe de Maria Cornélia e o padrasto de Knud foram como irmãos, cresceram juntos. Maria Cornélia Altenburg era filha de um dos mais ricos comerciantes madeireiros na próspera cidade de Skien”.

Quando Henrik Ibsen tinha cerca de sete anos de idade, no entanto, a sorte de seu pai deu uma guinada significativa para o pior, e a família acabou por ser forçada a vender o edifício principal dos Altenburg no centro de Skien, e mudar-se definitivamente para sua casa de verão de pequeno porte, Venstøp, fora do da cidade. Tal mudança influenciou definitivamente o comportamento de Ibsen que, já tímido por natureza, tornou-se mais isolado. A atmosfera familiar também era difícil, pois o pai era um homem dominador e alcoolista, e sua mãe uma mulher submissa, que buscava conforto na religião. Suas maiores distrações na infância eram o desenho e a pintura, paixões que manteve, pois conservou sempre consigo uma coleção de quadros que adquirira..

A família Ibsen acabou se mudando para uma casa da cidade, Snipetorp, de propriedade do meio-irmão de Knud Ibsen, o rico banqueiro e armador Christopher Blom Paus. Sua formação teria uma forte influência no trabalho posterior de Ibsen; os personagens em suas peças, muitas vezes eram espelho de seus pais, e seus temas muitas vezes lidavam com questões de dificuldade financeira, bem como conflitos morais decorrentes de segredos escondidos da sociedade. Ibsen usaria tanto o nome quanto o modelo de personagens inspirados em sua própria família.

Na adolescência, Ibsen apaixonou-se pela teologia e se tornou grande leitor da Bíblia, porém pouco pode se dedicar a tal estudo, pois aos dezesseis anos, mediante as precárias condições da família, teve que escolher uma profissão, mudando-se para a cidade de Grimstad, onde passou a trabalhar como aprendiz do farmacêutico, aí permanecendo por cinco anos. Em 1846, quando Ibsen tinha 18 anos, nasce Hans Jacob Henriksen, filho ilegítimo de Ibsen e Else Sophie, uma das criadas de Reimann, que Ibsen assumiu e sustentou imbuído pelo senso do dever, mas nunca o viu. A farmácia passou, depois, a ter um novo proprietário, o qual dá mais liberdade a Ibsen, que passa a administrar a farmácia praticamente sozinho. Conhece o músico Christojher Due e o estudante de direito Ole Shulerud, e a farmácia passa a ser um local de encontro de jovens que discutiam política, sociologia e literatura da época.

Ibsen pretendia, nessa época, estudar medicina, mas foi reprovado nos exames de admissão à universidade, passando a se dedicar, então, apenas à literatura. Sua primeira obra para teatro foi escrita ainda em Grimstad, em 1849, Catilina, que na época foi rejeitada pelos editores, e que foi publicada um ano depois, sob o pseudônimo "Brynjolf Bjarme". Sua segunda peça, Kjaempehoien (Túmulo de gigantes), compõe-se de um só ato e foi representada no teatro real de Cristiânia, atual Oslo, em 1850, mas recebeu pouca atenção.

A principal fonte de inspiração de Ibsen foi aparentemente o autor norueguês Henrik Wergeland e os contos populares noruegueses tais como recolhidos por Peter Christen Asbjørnsen e Jørgen Moe. Na juventude de Ibsen, Wergeland foi o mais aclamado, e de longe o mais lido poeta e dramaturgo norueguês.


Carreira literária

Produziu algumas sátiras, como "Norma", e poesias, como "A Epopeia" e "Helze Hundingsbone", adquirindo alguma celebridade. Foi designado, então, para diretor de cena num pequeno teatro de Bergen, o "Det Norske Theater", em Bergen, onde esteve envolvido na produção de mais de 145 execuções como escritor, diretor e produtor. Escreveu quatro peças, entre elas "Madame Inger em Ostraat", em 1855. "A Festa em Solhaug", de 1856, foi seu primeiro sucesso popular, resultando no convite para uma festa na casa da escritora Magdalene Thoresen, onde conheceu sua futura esposa, Suzannah Daae Thoresen, filha da escritora. Em 1858 casou com Suzannah e em 1859 nasceu o único filho do casal, Sigurd.

Ibsen voltou para Cristiânia e assumiu o Norwegian Theatre, em 1857, e após a falência desse teatro, assumiu a direção do Teatro de Cristiânia Theatre, escrevendo então "Os Guerreiros em Helgeland" em 1858, e a sátira "A Comédia do Amor", em 1862, essa idealizada inicialmente em prosa, mas transformada depois em versos. Nesta obra inicia sua luta contra as mentiras sociais, no caso específico, a hipocrisia do amor.

Em 1861, descontente com suas dívidas, doenças e com a pouca valorização atribuída à sua literatura, chegou a pensar em suicídio. Ele se casou com Suzannah Thoresen em 18 de junho de 1858 e ela deu à luz seu único filho, Sigurd Ibsen, em 23 de Dezembro de 1859. O casal vivia em péssima situação financeira e Ibsen tornou-se muito desiludido com a vida na Noruega. Em 1864, deixou a Cristiânia e foi para Sorrento, na Itália, em exílio auto-imposto. Nessa época, iniciou uma verdadeira polêmica com o escritor democrata Björnstjerne Björnson, através de correspondência. Ele não retornaria à sua terra natal nos próximos 27 anos, e quando retornou, foi como um famoso, mas controverso, dramaturgo.

Sua peça seguinte, Brand (1865), foi para trazê-lo à aclamação da crítica e ao sucesso financeiro, como a peça seguinte, "Peer Gynt" (1867).

Com o sucesso, Ibsen se tornou mais confiante e começou a introduzir mais e mais de suas próprias crenças e julgamentos nos dramas, explorando o que ele chamou de o "drama de idéias". Sua próxima série de peças é muitas vezes considerada o Golden Age, quando entrou no auge de seu poder e influência, tornando-se o centro da controvérsia dramática em toda a Europa.

Ibsen mudou da Itália para a Dresden, Alemanha, em 1868, onde passou anos escrevendo a peça que ele considerava como sua principal obra, "Imperador e Galileu" (1873), dramatizando a vida e os tempos do imperador romano Juliano, o Apóstata. Embora o próprio Ibsen sempre tenha olhado essa peça como a pedra angular de sua obra inteira, muito poucos partilharam a sua opinião, e suas obras seguintes seriam muito mais aclamadas. Ibsen mudou para Munique em 1875 e publicou "Casa de Bonecas" em 1879. A peça é uma crítica mordaz aos papéis conjugais aceitos por homens e mulheres que caracterizou a sociedade da época de Ibsen.

"Espectros" se seguiu em 1881, apresentando outro comentário mordaz sobre a moralidade da sociedade de Ibsen, em que uma viúva revela ao seu pastor que havia escondido os males de seu casamento para a sua duração. O pastor a aconselhara a se casar com seu noivo, apesar de sua promiscuidade, e ela fez isso na crença de que seu amor iria reformá-lo. Mas essa promiscuidade continuou até sua morte, e seus vícios são passados para seu filho na forma de sífilis. A menção da doença venérea, para mostrar como ela pode envenenar uma família respeitável, foi considerada intolerável.

Em "Um Inimigo do Povo" (1882), Ibsen foi ainda mais longe. Em peças anteriores, elementos controversos foram componentes importantes e até mesmo fundamentais na ação, mas eles foram em pequena escala de cada família. Em "Um Inimigo", a controvérsia tornou-se o foco principal, e foi o antagonista de toda a comunidade. A mensagem principal da peça é que o indivíduo que está sozinho é mais "certo" do que a massa de pessoas, que são retratados como ignorantes e carneiros. A crença da sociedade contemporânea era a de que a comunidade era uma instituição na qual se podia confiar, mas Ibsen apresenta a contestação dessa noção. Em "Um Inimigo do Povo", Ibsen critica não só o conservadorismo da sociedade, como também o liberalismo da época. Ele ilustrou como as pessoas de ambos os lados do espectro social poderiam ser iguais. "Um Inimigo do Povo" foi escrito como uma resposta às pessoas que haviam rejeitado o seu trabalho anterior, "Espectros". O enredo da peça é um olhar velado na forma como as pessoas reagiram à trama de “Espectros”. O protagonista é um médico em um local de férias, cujo principal objetivo é construir um banho público. O médico descobre que a água está contaminada, e espera ser aclamado para salvar a cidade do pesadelo de infectar os visitantes com a doença, mas ao invés disso ele é declarado um "inimigo do povo" pelos moradores, que lutam contra ele e até mesmo atiram pedras através de suas janelas. A peça termina com o seu completo ostracismo. É óbvio para o leitor que o desastre está na construção dos banhos para a cidade, bem como para o médico.

Como as audiências agora o aguardam, a sua próxima peça novamente ataca crenças arraigadas e pressuposições, mas desta vez, seu ataque não foi contra os costumes da sociedade, mas contra os reformadores e seu idealismo. Sempre um iconoclasta, Ibsen foi igualmente disposto a derrubar as ideologias de qualquer parte do espectro político, inclusive o próprio.

"O Pato Selvagem" (1884) é por muitos considerado o melhor trabalho de Ibsen, e é certamente o mais complexo. Ele conta a história de Gregers Werle, um jovem que retorna à sua cidade natal depois de um exílio prolongado e se reencontra com seu amigo de infância Hjalmar Ekdal. Ao longo da peça, os muitos segredos que estão por trás da casa Ekdals, aparentemente feliz, são revelados por Gregers, que insiste em perseguir a verdade absoluta, ou o "Chamado do Ideal". Entre estas verdades: o pai de Gregers engravida Gina e induz Hjalmar a se casar com ela e legitimar a criança. Outro homem foi desonrado e preso por um crime cometido pelo velho Werle. Além disso, enquanto Hjalmar passa seus dias trabalhando em uma "invenção" imaginária, sua esposa está ganhando a renda familiar. Ibsen mostra uso magistral de ironia: apesar de sua dogmática insistência na verdade, nunca Gregers diz o que pensa, mas apenas insinua, e nunca é entendido até que a peça atinja seu clímax. Gregers atinge Hjalmar através de insinuações e frases codificadas até que ele percebe a verdade, que a filha de Gina, Hedvig, não é sua filha. Cegado pela insistência de Gregers sobre a verdade absoluta, ele nega a criança. Vendo o estrago que ele tem feito, Gregers determina a reparar as coisas, e sugere a Hedvig que sacrifique o pato selvagem, seu animal de estimação ferido, para provar seu amor por Hjalmar. Hedvig, sozinha entre os personagens, reconhece que Gregers sempre fala em código, e procurando o significado mais profundo na primeira revelação importante de Gregers, mata-se, em vez de o pato, a fim de provar seu amor por ele no último ato de auto-sacrifício. Só muito tarde Hjalmar e Gregers percebem que a verdade absoluta do "ideal" é às vezes demais para o coração humano suportar.

No final de sua carreira, Ibsen se voltou para um drama mais introspectivo, que tinha muito menos a ver com denúncias dos valores morais da sociedade. Nas peças posteriores, tais como "Hedda Gabler" (1890) e "Solness, o Construtor" (1892), Ibsen explorou conflitos psicológicos que transcendiam uma rejeição simples de convenções atual. Muitos leitores modernos têm encontrado nesses trabalhos posteriores o objetivo de confronto interpessoal. "Hedda Gabler" é provavelmente uma das peças mais executadas de Ibsen, com o papel-título considerado como um dos mais desafiadores e recompensadores para uma atriz, mesmo nos dias de hoje.

Em 1889, Ibsen conheceu Emilie Bardach, uma jovem da alta sociedade canadense, com a qual passou a trocar correspondência, e especula-se um possível relacionamento amoroso entre eles. Suas cartas foram publicadas após a morte de Ibsen. Vieram então "Rosmersholm", "A Dama do Mar" e, em 1890, "Hedda Gabler". Nessa tragicomédia, através da discussão do papel da mulher na sociedade o autor leva o espectador a refletir sobre a própria existência humana.

Em 1892, seu filho Sigurd casou com Bergliot, e em 1893 nasceu o neto, Tancred. Em 1894, escreveu "O Pequeno Eyolf", onde criticou o papel social da família do século XIX. No drama escrito por Ibsen, a tragédia da morte do filho Eyolf traz à tona o relacionamento do casal, com as dificuldades do compromisso social do casamento. Mediante a não realização individual, o casal deposita seus sonhos e expectativas na vida do frágil Eyolf que, numa atitude de libertação, segue a Senhora dos Ratos, personificação da morte na mitologia norueguesa.

E finalmente, em 1899, Ibsen escreveu sua última obra: "Quando Despertarmos de entre os Mortos”. Em março de 1900, Ibsen contraiu uma forte gripe, e em poucas semanas teve o primeiro derrame, e em 1901 o segundo. Em 1902 foi indicado para o Prêmio Nobel de Literatura. Em 1903, após um terceiro derrame, perdeu a capacidade manual de escrever, e morreu em 23 de maio de 1906, sendo sepultado em primeiro de junho com honras de Estado no cemitério Var Freisers.

Centenário 

O 100 º aniversário da morte de Ibsen, em 2006, foi comemorado com um "ano Ibsen" na Noruega e outros países. Este ano, a empresa de construção civil "Selvaag" também abriu o "Peer Gynt Sculpture Park", em Oslo, Noruega, em honra de Henrik Ibsen, tornando possível acompanhar a peça Peer Gynt cena a cena.

Em 23 de maio de 2006, o Museu Ibsen (Oslo) foi aberto, na casa onde Ibsen passou seus últimos 11 anos, completamente restaurado com o interior original nas cores e na decoração.


Histórico 

Durante quatro séculos a Noruega fora administrada pelos dinamarqueses. Em 1814, separa-se da Dinamarca e integra-se à monarquia da Suécia, passando a ter sua própria Constituição, em 17 de maio, considerada uma das mais liberais da Europa. O poder executivo, porém, era constituído por civis indicados e o poder legislativo eleito indiretamente pelo povo. Os noruegueses não conseguiam impedir completamente as interferências suecas, que feriam seu orgulho nacional e serviam como incentivo ao nacionalismo.

Ao longo da dominação, duas classes haviam se formado: os camponeses e os funcionários. A classe dos funcionários era constituída por toda uma variedade de participantes, desde funcionários públicos, magistrados, pastores da Igreja Luterana, advogados, médicos, universitários em geral, até comerciantes e armadores, representando a civilização ocidental do país, a classe dirigente, sob a influência dinamarquesa que os formara e a fidelidade à coroa sueca. Já a classe dos camponeses, representada também pelos pescadores, pelos pobres, era politicamente democrática e ortodoxamente religiosa, odiava o Estado, que a excluía pela falta de formação universitária. As duas classes eram incompatíveis, inclusive falavam línguas diferentes: os funcionários falavam e escreviam o Riksmaal, língua dinamarquesa comum, e os camponeses falavam o Landsmaall, antiga língua medieval, próxima do islandês e do nórdico primitivo.

A literatura norueguesa era mais precisamente um ramo da literatura dinamarquesa. A literatura norueguesa moderna, identificada como literatura independente, inicia com Henrik Wergeland, chefe dos revolucionários nacionalistas e Johan Sebastian Welhaven, chefe dos conservadores. Por volta de 1850, iniciam-se as transições sociais, que vão servir de impulso para as revoluções literárias. O jovem Ibsen era, portanto, um daqueles estudantes pobres, que buscava vencer a custa de várias privações. O escritor entra num grupo de estudantes socialistas, os primeiros da Noruega, e começa a colaborar num jornal operário criado por Thrane. A prisão de Thrane e seus assistentes convence Ibsen a abandonar as manifestações políticas, mas as ideias socialistas intensificam sua revolta contra as autoridades e contribuem para a formação de sua visão de liberdade individual.


Características literárias 

Acredita-se que a obra de Ibsen foi influenciada pelo poeta dinamarquês Adam Gottlob Oehlenschläger, que enaltecia a era viking, e pelo dramaturgo francês Eugene Scribe, autor de mais de quatrocentas peças, muitas delas produzidas por Ibsen na época em que era diretor de teatro.

Costuma-se dividir sua obra em três períodos: romântico, entre 1850 e 1873, realista, entre 1877 e 1890, e simbolista, de 1892 a 1899.

Suas peças mais famosas retratam de forma realista a vida contemporânea, e seu tema central é o dever do indivíduo para consigo mesmo, onde os conflitos psicológicos predominam sobre as situações. Seu individualismo anarquista influenciou as gerações posteriores, mas em sua vida pessoal, Ibsen era conservador.

Suas peças causaram escândalo na sociedade da época, no enfrentamento dos valores morais vitorianos da família e da propriedade, então ainda predominantes. Ibsen defendia a liberdade espiritual, que nada teme, e não se submetia a nenhuma disciplina partidária, apenas à verdade.

Ibsen reescreveu totalmente as regras de drama com um Realismo teatral, que seria adotado por Chekhov e outros, e encabeçaria suposições, desafiador e falando diretamente sobre questões que têm sido consideradas um dos fatores que transformam a peça em arte, e não entretenimento.


CASA DE BONECAS (IBSEN)


É uma peça teatral que começou a ser escrita em 1878 e foi concluída em 1879, sendo representada pela primeira vez no “Det Kongelige Teater”, em Copenhage.


Enredo 



Ato I


O livro apresenta um perfil do relacionamento entre Nora e o marido, Helmer. É época de Natal e Nora chega com uma árvore, com cuidado para que as crianças não a vejam antes de ser enfeitada. O marido conversa com ela, de forma paternal, chamando a atenção para os seus gastos exagerados, mas ao mesmo tempo mimando-a. Costuma chamá-la carinhosamente de “cotovia”, “esquilo”, “minha menininha”, de forma a tratá-la como criança travessa, ao que ela aceita e age de forma infantil e sem maiores responsabilidades, preocupada apenas em satisfazer pequenos prazeres do dia a dia, como comprar presentes e preparar a festa de Natal. Nora pergunta ao marido se já convidou Dr Rank para a festa, ele relata que sim, fala do vinho que comprou para a noite e lembra da festa do ano anterior.

Repentinamente, a criada Helena anuncia a chegada de uma mulher e do Dr. Rank, concomitantemente, e enquanto Helmer recebe Rank no escritório, Nora recebe a mulher, que inicialmente não reconhece e que depois constata ser a Sra. Cristina Linde, sua antiga colega de escola. Nora se desculpa por não ter lhe escrito quando da morte do marido, há três anos, e se apieda por Cristina ter ficado completamente só, sem filhos e sem bens. Relata estar muito feliz, pois Helmer foi nomeado, há poucos dias, diretor do Banco de Investimentos, e assumirá o posto no próximo ano, o que trará estabilidade à família, e não precisarão mais fazer economia. Nora relata para a amiga que ajudou a família fazendo pequenos trabalhos artesanais, e que Helmer adoecera, obrigando-os á passar um ano na Itália, em tratamento, com o dinheiro do pai dela. Cristina, por sua vez, relata que casara porque sua mãe estava doente e ela precisara sustentar os irmãos. Apesar disso, quando o marido morreu, precisou fazer diversos trabalhos, até que agora, com a morte da mãe e a independência dos irmãos, voltara em busca de um emprego estável, e acreditava que Helmer pudesse ajudá-la. Nora se prontificou a falar com o marido sobre o assunto.

Cristina insinua que Nora não conhece o “lado feio da vida”, que é uma “criança grande”, e Nora contesta, confidenciando-lhe que fora ela que salvara a vida do marido. Na verdade, todos pensavam que fora seu pai que os ajudara na viagem à Itália, e mediante o fato de logo ele ter logo falecido, continuaram a pensar assim, mas fora ela, Nora, quem conseguira o dinheiro, através de um empréstimo que ainda pagava com pequenos sacrifícios e economias, sem seu marido saber. A campainha toca novamente, e a criada anuncia o Sr. Krogstad, que quer falar com Helmer sobre seu cargo no banco, já que Helmer será seu patrão. Cristina o reconhece, dizendo que ele se dedica a “negócios de toda espécie”. Dr. Rank entra na sala, vindo do escritório, e é apresentado à Sra. Linde. Rank comenta sobre Krogstad, que agora se encontra no escritório de Helmer, e comenta sobre a falta e caráter dele. Quando Helmer sai do escritório, é apresentado a Cristina e, para satisfação de Nora, promete lhe conseguir algum emprego. Helmer, Dr. Rank e Cristina saem, e na saída, encontram-se com os três filhos do casal, que chegam com a governanta Ana Maria.

Nora fica a sós com os filhos e, repentinamente, Krogstad entra pela porta entreaberta, para lhe falar. Falam a sós e Krogstad pede que Nora interfira por ele com o marido, mantendo-o num bom cargo no banco, e quando Nora recusa, ele a ameaça de contar ao marido sobre o empréstimo que ele lhe fez. Nora acredita que o empréstimo está quase pago, porém Krogstad esclarece que ela não prestou atenção às condições do contrato de empréstimo. Ela assinara as promissórias, e seu pai assinara com avalista, porém a data que estava em branco fora datada três dias após o pai de Nora haver morrido, além de a assinatura e a letra não serem a do falecido. Nora admite ter ela mesma assinado o documento, e não o pai, pois ele estava doente. Krogstad ameaça levar o documento à Justiça, para prejudicar Nora e o marido, e sai. Nora fica preocupada, mas começa a arrumar a árvore de Natal, quando Helmer chega e pergunta se Krogstad lhe pedira para interceder por ele; Nora nega e disfarça envolta com os arranjos de Natal. Helmer relata que Krogstad falsificou uma assinatura, e comenta da baixeza desse ato, em especial perante o mau exemplo para os filhos; depois pede que Nora não interceda por Krogstad. Nora fica perplexa e assustada, com a possibilidade de o marido não a perdoar mais.



Ato II


No mesmo cenário, ao lado da árvore de Natal, Nora está preocupada. A governanta a ajuda com a caixa de fantasia, e Nora lhe pergunta sobre a filha, que se criou longe de Ana Maria, pelo fato de essa precisar trabalhar. Ana Maria sai e Nora fica imersa em preocupações. Cristina entra, e Nora lhe fala sobre a festa de fantasias a que ela e o marido vão comparecer à noite, no apartamento dos vizinhos do andar de cima. Enquanto costuram, Cristina lhe pergunta sobre o Dr. Rank, achando-o deprimido, e insinuando que ele seja um admirador que emprestou a Nora o dinheiro para o tratamento do marido. Nora nega, revela que Dr. Rank está doente, mas aventa a possibilidade de lhe pedir ajuda. Cristina percebe que ela está lhe escondendo alguma coisa, mas Helmer chega e Cristina se recolhe para o quarto das crianças. Nora pede delicadamente a Helmer que conserve o emprego de Krogstad no banco, mas ele recusa, pois esse será o emprego de Cristina. Nora tenta convencê-lo, mas Helmer está firme e apresenta outras razões para demiti-lo, mandando Helena levar um recado escrito para Krogstad, a sua demissão. Nora fica desesperada, e quando marido sai para o escritório Dr. Rank chega.

Dr. Rank se mostra pessimista com a própria saúde, e pede que Helmer não esteja à sua cabeceira quando falecer. Nora o consola, mostra-lhe trivialidades de sua fantasia, e Dr. Rank se mostra grato por frequentar a casa. Nora se sente à vontade com a amizade dele e se acha movida a lhe pedir ajuda, quando Rank confessa-lhe o seu amor, deixando-a embaraçada e sem coragem de lhe pedir um favor. Enquanto conversam, a criada Helena lhe traz um cartão, que Nora olha e guarda no bolso, desculpando-se com Rank e saindo. Krogstad a aguarda na cozinha.

Krogstad relata ter recebido a carta de demissão; Nora diz que nada pôde fazer, e ele relata ter em seu bolso uma carta para Helmer, contando tudo, e pede que ela o ajude, não em dinheiro, mas em reabilitação, influenciando Helmer e conseguindo-lhe um emprego mais elevado no banco. Nora não aceita e ele a ameaça, dizendo que sua reputação depende dele, depois sai e Nora o ouve colocando a carta na caixa do correio. Quando Cristina chega, Nora lhe mostra a carta na caixa, e diz ser de Krogstad, e conta a ela o que aconteceu. Mediante o desespero de Nora, Cristina pretende ir atrás de Krogstad, e sai.

Nora vai até o escritório, abre a porta e conversa com Helmer e Rank, tentando distrair o marido antes que ele vá até a caixa de correio. Tenta distraí-lo com o ensaio de dança, e pede que não abra a correspondência até depois da festa. Cristina volta; a criada os chama para o jantar. Cristina segreda a Nora que Krogstad saiu da cidade, e que ela lhe deixou um bilhete. Nora lhe diz que não está mais preocupada, pois ocorrerá um milagre e se prepara para o jantar.



Ato III



O terceiro ato ocorre na própria sala anterior. A Sra Linde está sentada, lendo, e Krogstad entra pelo vestíbulo, relatando ter recebido seu bilhete; Cristina está só, pois o casal foi no baile a fantasias, no andar de cima. Os dois revelam um relacionamento anterior, e Krogstad lhe cobra o fato de ela o ter abandonado, ao que Cristina se desculpa, pois na época tinha mãe doente e irmãos para criar, e não podia esperar pelos projetos dele, que pareciam muito distantes e assim se casou com outro. Cristina e Krogstad revelam que perceberam que ela ocuparia o lugar dele no banco. Ela sugere que fiquem juntos novamente, pois ela se sente sozinha, e ele aceita, alegremente. Krogstad pensa em voltar atrás em sua atitude com os Helmer, e decide pedir a carta de volta. Cristina o dissuade, pois relata ter visto muitas coisas naquela casa, sugerindo que seria melhor Helmer saber de tudo.

Krogstad diz que ainda precisa fazer uma coisa e que vai esperá-la, lá fora. Cristina fica feliz, por ter novamente alguém para cuidar. Nora e Helmer chegam do baile, e Cristina diz ter esperado para ver Nora fantasiada. Helmer elogia a esposa que dançou durante a festa, e sai para o quarto. Nora conversa com Cristina, perguntando se falou com Krogstad, e essa revela que Krogstad nada vai fazer, mas que o marido precisa saber de tudo; Nora nega. Helmer volta, e Cristina se despede e sai. Helmer e Nora ficam sós, e ele lhe fala de seu carinho, quando Rank chega. Conversam sobre generalidades da festa a fantasia, Rank pede um charuto e depois sai. Helmer vai até o escritório para olhar as cartas, e percebe que alguém mexeu na fechadura, tentando abri-la com um grampo. Helmer pega as cartas, Nora fica apavorada, mas Helmer encontra dois cartões de Rank, um encimado por uma cruz preta, e o casal percebe que o médico estava anunciando sua própria morte. Helmer se entristece com a perda do amigo e se fecha no escritório para ler as cartas, enquanto Nora se desespera, acreditando que o perderá, e aos filhos, para sempre. Repentinamente, Helmer abre sua porta, com uma carta nas mãos, mostrando-se incrédulo com o seu conteúdo. Nora diz que fez tudo por amá-lo, mas ele se ressente, acusando-a da falta de princípios que ela herdara do pai, julgando-a e preocupando-se com o fato de tal situação se tornar pública, expondo-os e tornando-o também suspeito. Proíbe-a de educar os filhos, e preocupa-se apenas com a manutenção das aparências.

Repentinamente, recebem uma carta de Krogstad, que devolve à promissória, e Helmer percebe que estão salvos e a rasga. Helmer se alegra, considera tudo resolvido e a perdoa, mas Nora se mantém fria, apesar da atitude de arrependimento dele. Ela agradece, tira a sua fantasia, enquanto ele discorre sobre sua própria benevolência em perdoá-la, em protegê-la e salvá-la. Nora o convida para conversarem, e diz nunca o ter compreendido, até aquela noite. É a primeira conversa séria, de homem e mulher, que eles têm. Nora compara o comportamento dele com o de seu pai, pois ambos a tratavam como uma criança a ser protegida e cuidada, ambos brincavam com ela como se brincassem com uma boneca, evitando que ela participasse dos problemas e das decisões, transformando-a em filha-boneca e mulher-boneca. Nora reconhece não estar preparada para educar seus filhos, e confessa que vai embora, pois apenas sozinha poderá compreender a si mesma e ao mundo, e confessa não mais amar o marido. Devolve-lhe sua aliança, e diz que só voltará se acontecer o maior de todos os milagres: os dois se modificarem a ponto de fazer do casamento uma verdadeira vida em comum. Nora sai e Helmer fica só.


Características 


É um drama em três atos, em que Ibsen questiona as convenções sociais do casamento. A tragédia retrata a hipocrisia e convencionalismos da sociedade do final do século XIX.

Na época, mediante as tentativas de emancipação feminina, foi uma peça revolucionária, com grande repercussão entre feministas, a Europa inteira a discutiu. Houve censuras violentas lançadas contra a personagem principal, Nora, pois a época não perdoou seu abandono da casa e dos filhos.

Com essa peça, os críticos acreditam que Ibsen abriu caminho para a tragédia, pois foi à primeira solução trágica do autor: Nora abandona marido e filhos em busca da liberdade pessoal.

A VIDA DE WILLIAM SHAKESPEARE - FAMÍLIA, NASCIMENTO, INFÂNCIA E EDUCAÇÃO

A VIDA DE WILLIAM SHAKESPEARE


FAMÍLIA, NASCIMENTO, INFÂNCIA E EDUCAÇÃO 


William Shakespeare foi filho de John Shakespeare, filho de fazendeiro, foi curtidor de peles e luveiro em Stratford. A profissão de luveiro demandava precisão e destreza, mas, infelizmente, não trazia grandes recompensas financeiras. Com o tempo desempenharia funções públicas importantes: seria conselheiro do burgo, juiz de paz e, finalmente, em 1568, grão-bailio (prefeito) de Stratford. Foi também acusado de haver comercializado lã ilegalmente. Há registros, na igreja de Stratford, que atestam sua ausência em celebrações religiosas; a causa provável era o fato de estar sendo processado por dívidas. John Shakespeare considerava esse fato conveniente e, assim, ter um pretexto para evitar não ir às orações da igreja. Outro fator era pela nova igreja que, naquela época, estava sendo estabelecida na Inglaterra. Muitos estudiosos acreditam que John era católico. Em 1559, cinco anos antes do nascimento de Shakespeare, a religião da Igreja Elisabetana instituída na Inglaterra resolveu cortar laços, finalmente, com a Igreja Católica Romana. Nos anos seguintes, na Inglaterra, houve uma pressão extrema contra os católicos com o fim de convertê-los à Igreja Protestante da Inglaterra e foram feitas leis para a ilegalização do catolicismo e contra os que se recusavam a aceitar a nova religião. Há uma evidência muito forte que aparece num escrito em que se professa um catolicismo secreto, assinado por John Shakespeare, pai do poeta. O escrito foi encontrado no século XVIII, nas vigas de uma casa onde tinha sido, numa ocasião, habitada por John Shakespeare, mas que ainda causa desconfianças. Desse modo, apesar de ter vivido um período de prosperidade que lhe permitiu comprar terras e casas em Stratford, John sofreu revezes que o obrigaram a se retirar da vida pública. Mary Arden, era filha de Robert Arden, próspero fazendeiro da região, cujo sobrenome remonta à época da conquista da Inglaterra pela Normandia (1066). Mary trouxe dote substancial ao casamento. Tudo indica que foi uma boa esposa e que contribuiu com o trabalho de John, além de cuidar dos seis filhos: William, Gilbert (1566-1612), Joan (1569-1646), Richard (1574-1613), Anne (1571-1579) e Edmund (1580-1607). A responsabilidade de Mary fica evidente na confiança que seu pai lhe depositou quando a tornou executora de seu testamento, fato raro para as filhas na época. O nascimento de William, que ocorreu em um dos surtos de peste bubônica que assolaram Stratford, deve ter trazido ao mesmo tempo muita alegria e muita apreensão a seus pais, John e Mary, que já haviam perdido duas filhas, Joan (1558) e Margaret (1562). 

William Shakespeare nasceu em abril de 1564, provavelmente na casa de Henley Street, hoje conhecida como The Birthplace (o local de nascimento), na cidade de Stratfordupon-Avon, no coração da Inglaterra. Embora a sua data de nascimento seja desconhecida, admite-se a de 23 de abril com base no registro de seu batizado, a 26 do mesmo mês, devido ao costume, à época, de se batizarem as crianças três dias após o nascimento. Shakespeare foi o terceiro filho de uma prole de oito e o mais velho a sobreviver. Muitos concordam que William foi educado em uma Petty School (escola de primeiras letras) e, depois, por volta de sete anos, ingressou em uma excelente grammar schools da época, um tipo de preparação para a Universidade.

Grammar schools (escola primária que é um dos vários tipos diferentes de escola na história da educação no Reino Unido e em alguns outros países de língua Inglesa, originalmente uma escola de ensino de línguas clássicas). O colégio onde estudou foi o King Edward VI Grammal. A vida, nesse colégio, para Shakespeare teria sido muito rigorosa, com uma carga horária mais que o dobro dos atuais horários escolares. Não se praticavam exercícios físicos e brincadeiras dentro da escola. Não existiam nem férias de verão ou de inverno. Com o tempo, John foi obrigado a tirá-lo desta escola, quando William deveria ter quinze ou dezesseis anos (algumas fontes citam doze anos). Na década de 1570, John passou a ter um declínio econômico que o impossibilitou junto aos credores e da sociedade. Acredita-se que, por causa disso, o jovem Shakespeare possuiu uma formação colegial incompleta. Shakespeare precisou trabalhar cedo para ajudar a família, aprendendo, inclusive, a tarefa de esquartejar bois e até a de abater carneiros. Mas sua primeira formação se deu basicamente, a partir da leitura dos clássicos como Sêneca, Plauto e Cícero, e do estudo do latim. A obra de Shakespeare fornece claras evidências de que ele aproveitou muito bem esses e outros autores. Um contemporâneo e dramaturgo rival, Ben Jonson (1572-1637), escreve em um famoso e ambíguo elogio, que Shakespeare conhecia “pouco latim e menos grego”. Jonson possuía um conhecimento clássico sólido em uma época que se valorizava muito a cultura greco-romana. O domínio de latim que Shakespeare possuía não era suficiente para o exigente Jonson que, no entanto, profetizou que Shakespeare pertencia “não a uma época, mas a toda eternidade”. 

Muitos historiadores acreditam que Shakespeare vivia fazendo uma resistência pacífica significativa sobre a recente fé imposta. Certos eruditos, usando as evidências históricas e literárias, aceitam a discussão de que Shakespeare era um dos recusantes. Outros eruditos acreditam que há evidências de que os sócios da família de Shakespeare eram católicos recusantes.